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Desabafos de um Vagabundo

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

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Beijo de Ano Novo

020 - ano novo.jpg21. Beijo de Ano Novo, antes de mais trata-se de um ato feliz, de partilha de uma passagem entre o que acaba para um novo ciclo que se inicia. Será sempre um beijo entregue entre borbulhas de champanhe, ao som de foguetes eclodindo pelos céus distribuindo figuras, imagens e cores garridas que tornam humilde o mais imponente arco-íris. A dado instante, por entre toda a gente que festeja, procuramos com o olhar ávido a quem queremos bem, brindamos, cumprimos os rituais e trocamos um beijo intenso, seguro, absoluto e decidido como poucos outros, é o mais perfeito rito de cumplicidade, de entrega e de certeza, sendo igualmente perfeito quer na amizade como no amor. Beijo a dois, entre mil, sem Covid, sem máscara, na intimidade mística do dois em um, beijo de luta, de resistência e de esperança, enfim beijo de Ano Novo em 2021.

 

 

 

Beijo de Xeque-Mate

427 - xeque-mate.jpg427. Beijo Xeque-mate, é o beijo mais estratégico que existe. Foi pensado como um desafio. O paralelismo com o xadrez tem a ver precisamente com toda a inteligência, sagacidade, subtileza, finura, argúcia e estratégia necessária não para matar seja o que for, mas para conseguir chegar à dama e com ela partilhar um beijo consentido e, se tudo correr bem, também por ela desejado. O problema reside principalmente em fazer despertar o interesse da donzela no cavalheiro, que nela viu algo de especial, mas que não se sentiu correspondido. Se conseguido, este é um beijo de glória de um, claudicado agradavelmente pelo outro, dado com garra e conquistado com paixão, sem deixar alternativas que não as do próprio ato de beijar.

 

 

 

Beijo de Xarém

426 - xarém.jpg426. Beijo de Xarém, um beijo de praia. Regional como o prato que lhe dá o nome. Afinal resume-se em levar ao lume farinha de milho, azeite, toucinho, bivalves do mar, água, sal e um cheirinho de coentros. Só que aqui o lume é representado pela figura do Macho Latino do Algarve, bem no Sul da paisagem portuguesa, dos quais são exemplos "Trê-Bêces", "Zézé Camarinha" e "Carlos Dias". A farinha de milho interpreta o papel das areias das praias quentes da região, sendo que a água e o sal são sinónimos do mar que as banha e refrescam. O toucinho, pouco abundante na receita, ocupa o lugar dos machos de serviço. Os bivalves são a representação evidente da língua e do falo dos ilustres marialvas. O cheirinho a coentro caracteriza bem o ar naïf dos protagonistas e o azeite afigura o bronzeado e o cabelo penteado a gel dos atuantes. O beijo de xarém pode, se tomado à letra, ser, portanto, um beijo a recusar… mas, levado ao mais puro dos sentidos, nada mais é que um ingénuo, alegre, confiante e estival beijo de garanhão, num dia de calor, à beira mar.

 

 

 

Beijo de Xá

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425. Beijo de , este é o autêntico beijo de nobreza árabe. Protagonizado numa atmosfera de aromas de incensos, por entre cortinas e véus de tule, seda, cetim e transparência. Transferindo sensualidade aos corpos, sagacidade e avidez à mente e à líbido. Executado em noites de Lua Cheia, na claridade de pequenas velas de luz difusa e amarela, enquanto, no ar, entoam os "mazāhar", os "marāwīs", os "buzuques", os "gambus", os "mazāwid", as "tanbūrads", os "rebabs" e as "zukras", criando melodias envolventes de elevado grau de concupiscência e de luxúria exuberante. Beijo de Xá, abraçando os sentidos, qual fumo difuso saído de um enorme cachimbo de água, num reino de fantasia onde a fêmea se sente beijada por um Omar Sharif, na flor da idade, com um olhar de poder que transpira sexo.

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Beijo de Wok

424 - wok.jpg424. Beijo Wok, quente, muito quente, este é um beijo oriental por excelência. Não se pense que é apenas pela origem do nome, proveniente da tradicional e milenar panela chinesa em forma de meia esfera, de calote cortada. Ele detém também o equilíbrio e experiência e a devida paciência tradicional do Oriente. Um beijo wok é aquele que melhor concentra as energias de quem se beija focadas no respetivo ato, sem distrações, obrigando à rápida exaltação dos corpos uma vez que o calor que emana se espalha uniformemente pelos seus promotores. Quem beija wok fá-lo de olhos semicerrados, sentindo a ardência lhes invadindo o ser, a excitação em crescendo obrigando a dopamina a uma segregação sem par, até que, quase sem se saber como, o beijo conflui das bocas para um total laço de amor.

 

 

 

Beijo de Wagner

423 - wagner.jpg423. Beijo de Wagner, sempre agitado, para o visualizar imagine-se o compositor envolto nas suas inúmeras turbulências amorosas. Um homem que acabou pobre porque para ele o dinheiro não tinha significado ou importância. Um criador genial considerado um marco da música moderna. Depois, recordemos uma das suas óperas, "Tristão e Isolda", por exemplo, e eis que temos o quadro perfeito para um beijo de génio, arrebatado, poderoso, criativo, apaixonado e apaixonante, executado ao som de orquestras num palco feito de vida, de fervor e muito sonho. Beijo de Wagner um beijo marcante que nos põe a música na boca e a criatividade no paladar.

 

 

 

Beijo de Waffle

422 - waffle.jpg422. Beijo de Waffle, porque, antes de tudo mais, beijar é como fazer algo de doce. Se no waffle usamos farinhade trigo, ovos, leite, fermento, açúcar e manteiga, no beijo usamos a boca, os lábios, a língua, o sorrir, o sentir, o olhar e a pele, não para fazer uma bolacha, que se assa numa grelha, para depois a rechear com um outro doce, mas para criarmos um beijo que nos ateia a chama. Um beijo nos cruzamentos de fluidos que nos parecem mais doces do que outra qualquer iguaria, mais fofos do que qualquer massa, mais waffle do que qualquer waffle.

 

 

 

Beijo Vulgar

421 - vulgar.jpg421. Beijo Vulgar, muitas vezes dúbio quanto à raiz das suas intenções. O termo vulgar é tanto usado para significar trivial como para designar ordinário, quase obsceno. Mas em qualquer das circunstâncias estamos perante um beijo menor, sem alma, sem essência, sem conteúdo. A sua importância apenas se encontra enquanto é praticado como compromisso ritual de cortesia ou de agradecimento superficial. Por outro lado, na frente selvagem deste beijo, encontramos não raramente o ímpeto porno de quem aprecia a carne pela carne, o sexo pelo sexo, numa imagem clara de predador e presa. Neste contexto o beijo vulgar só é verdadeiramente positivo se usado enquanto fetiche de uma tórrida noite de amor.

 

 

 

Beijo de Natal

258 - natal.jpg

261. Beijo de Natal, aquele que nasce em tempo de paz e de harmonia, rodeado de sorrisos, risos e gargalhadas, numa época onde se dá e se recebe pelo prazer simples da troca franca de mimos a querer significar que essa pessoa nos importa no íntimo do que somos. Um beijo acompanhado quer pela música angélica dos sinos e dos órgãos, que parecem cantá-lo em plenos plumões, quer pelas luzes de mil velas vermelhas que ardem, ao lado de incensos doces que se impregnam no ambiente e o sensualizam tornando-o mais quente, mais suave e mais apetecido. Beijo de Natal, repartido entre dois seres, com a simplicidade das sedas e das luzes, que iluminam almas e estrelas num ato de fé, de prazer e de cumplicidade, que o feio torna bonito, o bonito sensual e o sensual, perfeito.

 

 

 

Beijo de Vulcão

420 - vulcão.jpg420. Beijo de Vulcão, pela beleza incomparável de um vulcão em chamas. Emitindo lava rubra, buliçosa, espessa e escorregadia, num movimento lento que, aos poucos, vai ganhando terreno e formas. Um beijar de erupção divina de músicas cantadas por rouxinóis, na explosão primaveril da vida, que nos inflama a imaginação por entre os odores de orquídeas raras. Já o ambiente parece ornado com o toque sensual das sedas da longínqua China ou com o gosto ao néctar dos deuses romanos, de eras passadas, ainda no palato. Um beijo que lembra as orgias desnudas de preconceitos. Beijo vulcanizado pela avidez do momento, tomado por impulso e entregue com chama.

 

 

 

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