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Desabafos de um Vagabundo

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

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Tien An Men 30/01

 

Tien An Men

"TIEN AN MEN"

(AS VINDIMAS DE JUNHO)

Cantam as vindimas os Podadores,
Cantam na Praça de Tien An Men...

Vindimas de Junho
Onde uvas, aos cachos,
Aguardam a poda...
E há quem as ouça... parecem gritar:
"- Queremos Liberdade! Democracia...
E embora com medo queremos Liberdade!
Não vamos fugir,
Somos milhares pedindo uma voz,
E apenas uma,
Hoje e aqui em Tien An Men,
No lar da Paz Celestial...
Tien An Men, Tien An Men,
Pedimos apenas o que é natural!..."

Fazem chacinas os Caçadores,
Caçam na Praça de Tien An Men...

Chacinas de Junho
De foice e martelo, de gás e de bala,
De bomba e canhão, de tanques estanques,
Ceifam-se estudantes...
Morrem às dezenas, centenas, milhares,
Qual carne picada triturada a aço;
Não sobra pedaço...
No lagar de horrores o mosto já fede!...

E choram as vitimas dos Podadores
Choram na Praça de Tien An Men...

Vitimas de Junho...
Só os mortos cantam, num descanso ameno,
Na Praça da Paz Celestial...
Vitimas do medo, que o Poder tremeu,
Vitimas tão cedo de quem não cedeu...
Mortos, mais mortos e outros ainda
Que em Tien An Men
Pra sempre ficaram...
E só porque ousaram pedir Liberdade
Pra poder falar e ouvir e ler,
E poder escolher
Entre concordar e não concordar...

E contam as vitimas os Ditadores
Contam na Praça de Tien An Men

Um, dois, três, cem, mil, e mais e mais...
Aumentam os corpos ceifados a esmo:
Mulheres, homens, velhos, crianças,
Dois mil, três mil...
Vale mais não somar,
Esquecer os totais...
Que em Tien An Men ,
A praça da Paz Celestial,
Nasceu um Inferno feito por mil Dantes...
O Verão foi Inverno... morreram estudantes...

E cantam os Anjos num coro de dor
Cantam as Almas de Tien An Men...

E a China já chora
O chão decorado de ossos e tripas,
De músculos rasgados,
Banhados no sangue de um mar de mártires:
Um novo Austerlitz!...
No tocar dos extremos
O sangue é fusão...

Cantam as vitimas os Podadores
Tomara que só em Tien An Men...

Tomara também que no Luso Ocidente
Vindimas não hajam
Nos meses errados...

Cantam as vitimas os Podadores
Tomara que só em Tien An Men...

Vitimas de Junho...
Pisaram-se as uvas e embora verdes
Um mosto vermelho encheu o lagar
- Tien An Men... Tien An Men...
Os bagos esmagados parecem falar...

E cantam as vitimas os Podadores
Tomara que seja o Canto dos Cisnes...

Haragano, O Etéreo in O Próximo Homem

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