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Desabafos de um Vagabundo

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Sem Saber Como

 

             XXVII

 

"SEM SABER COMO"

 

Que vou fazer agora meu amor?

Ai, diz-me, por favor, que faço agora?

Devo afogar na dor meu ser que chora?

Devo chorar o amor sem teu calor?

 

Devo existir sequer? Oh, por favor,

Diz-me o que hei-de eu fazer, já, nesta hora

Em que fiquei sem ti, que foste embora?

Como vou eu viver com esta dor?

 

Não tens resposta, já não dizes nada,

Deixaste que te amasse e me iludi,

Pensei que a minha vida era pra ti

 

E afinal acabei só nesta estrada!

É tão triste, mas tão triste sonhar

Para, sem saber como, eu acordar!

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Ardo

 

   XXVI

 

"ARDO"

 

A dor que dói assim qual fogo ardente,

Que nos consome em chamas mil, devora

A pouco e pouco a alma, e se demora

Nos consumindo o ser, o sermos gente...

 

A dor que dói assim me faz demente,

Qual tocha humana que arde a toda a hora...

E em labaredas choro meu ser agora,

Lágrimas inflamadas em torrente...

 

Eu choro a dor que dói, a dor profunda,

De te perder de mim, de ficar só,

Mas estas chamas fazem mais que dó,

 

Me tornam a existência vagabunda!

Qual tocha humana eu ardo sem momento,

Que a dor que dói assim não leva o vento...

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – A Vida

 

     XXV

 

“A VIDA…”

 

Por entre o vento e frio da terra agreste,

Por entre a chuva agora copiosa,

Vendo nuvens de forma volumosa

Vindas do cardinal de noroeste,

 

Vejo surgir o Sol no brilho infindo

Da figura que chega, mais formosa

Do que uma Primavera gloriosa,

Que pelo mês devia já ter vindo…

 

És tu que chegas perto, meu amor,

Com o Sol nos cabelos trazes luz,

Com um brilho dos olhos que seduz

 

Até a terra fria e sem calor…

Obrigando o Inverno à despedida,

Vem! Qual Verão tropical tu és a vida…

 

Haragano, o Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Adeus Mãe

 

        XXIV

 

"ADEUS MÃE"

 

São as chagas de Cristo em cada palma,

Flagelos mais de mil, aqui... além...

São lágrimas de fogo em noite calma,

Soluços que o meu peito não contém...

 

São farrapos dispersos da minha alma,

Recordações, saudades, sei lá bem!...

São como as roxas malhas de uma talma

Que parece sofrer por minha mãe...

 

São sombras de mistério... vago fumo...

Folhas seguindo o vento neste Outono!...

Folhas de quem vou eu seguir o rumo

 

Rolando pelo chão... Terminal sono!...

Mãe choro o teu sorriso, coisa pouca,

A falta dos teus braços, dessa boca...

 

Haragano, o Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Rosa do Rio

 

          XXIII

 

“ROSA DO RIO”

 

Um dia, numa noite, sem esperar,

Ai, a mais bela flor, eu encontrei…

Como uma rosa, digna só de um rei,

Era como veludo ao desfolhar

 

Sem, no entanto, preciso ser tocar…

Gotas de orvalho nela vislumbrei,

Com um brilho que descrever não sei,

E que então me fizeram deslumbrar…

 

Mas rosa a flor não era propriamente,

Descia à beira rio, sem ter raiz,

Doava luz ao rio de tão feliz

 

Procurando aventura na corrente…

Era uma flor livre, era um sentimento,

Flor radical, pintura de um momento….

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Paisagem

 

         XXII

 

“PAISAGEM...”

 

Mais uma vez o olhar bebeu paisagem,

Esse meu pobre olhar, desgovernado,

Viu searas de trigo tão doirado

Que luz davam aos verdes, qual miragem,

 

De que dois olhos de água eram imagem…

Mais uma vez fiquei, ali, parado…

E, a custo, de meus dedos fiz arado

E com eles lavrei uma massagem

 

Por vales e encostas, com ternura,

Em momentos roubados ao prazer,

Por deles, por direito, não os ter,

 

Sorrindo no secreto da loucura…

E a paisagem surgiu alva e perfeita

Dos cumes onde o vento se deleita…

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Vida

 

  XXI

 

"Vida"

 

Pegar numa palavra sem sentido,

Fazer dela poesia, forma, rosto,

Torná-la expressão ou algo imposto

E dar-lhe a melodia, o ar vivido

 

Das outras com passado já perdido...

Conotar com prazer ou com desgosto

Essa palavra nova, ainda em mosto,

E dar-lhe um coração vivo, garrido...

 

Fazer dela senhora... mais: Rainha!...

Palavra das palavras, a maior!

Vida: Pode ser uma adivinha,

 

Um sonho, um riso, um grito ou um condor...

Seja o que for, Vida é sempre minha:

Amada, vida, dor... ou meu amor...

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Vermelha Tempestade

 

                     XX

 

"VERMELHA TEMPESTADE"

 

Querer... Já diz quem sabe que é poder;

Poder... Já diz quem tem que é divinal,

Divino... Diz quem sente que, afinal,

Amar é mais profundo... e mais que ter

 

Qualquer uma outra força pra viver...

Amar... um todo é!... Fundamental...

Amar - A luz mais forte: Capital

De quem pode o caminho escolher!...

 

Querer... poder... viver... Oh! Mas amar...

Nada é tão forte, quanta intensidade:

É como sentir vermelha tempestade

 

Nos invadindo a alma e o olhar;

É como ter na mão o infinito;

É querer, poder, viver, em um só grito!

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Tudo e Nada

 

            XIX

 

"TUDO E NADA"

 

Amor, num golpe, é espada e cativeiro;

Amor é chave, é vinha e é guarida;

Amor é já, também, a nova vida;

Amor é universo e é celeiro;

 

Amor é flor exposta num canteiro:

Orquídea, rosa, cravo ou margarida?

Não importa saber qual a mais q'rida,

Se em lapela ao amor tomam o cheiro...

 

Amor é coração, amor é dor,

É ter; é ser; é estar; é acordar;

Amor é o primeiro beijo dar;

 

Amor é quando ao vê-la tem calor

Perdida face agora enamorada...

Amor é sempre tudo; é sempre nada!...

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

Poemas de um Haragano: Terra de Vénus – Tu e Eu

 

    XVIII

 

"TU E EU"

 

Unidos, tu e eu, por nosso amor,

Por esse doce amor que em nós nasceu,

E, muito superior ao de Romeu

Ou ao da bela dama Leonor;

 

Amor mais forte que o Adamastor...

E que ninguém se atreva, nem Morfeu,

Nem Júpiter, nem Vénus, nem Orfeu,

A tentar pôr fim ao seu vigor.

 

Tu e eu, no amor que nos juntou,

No amor que jamais nos separou,

Os deuses venceremos, pois unidos:

 

Somos mais fortes do que o forte Marte,

Mais amorosos do que mil Cupidos,

Mais belos e perfeitos do que a Arte!

 

Haragano, O Etéreo in Terra de Vénus

(Gil Saraiva)

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