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Desabafos de um Vagabundo

Serve este local para tornar visivel o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados os meus pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, toda a parafernália que a imaginação e a veia me for dando.

Serve este local para tornar visivel o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados os meus pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, toda a parafernália que a imaginação e a veia me for dando.

Casa do Gaiato

Casa do Gaiato.jpg

Fez hoje 79 anos que abriu a Casa do Gaiato, obra do padre Américo, obra de rapazes, para rapazes, pelos rapazes. Obra de Rua. O lema era então: "Ninguém espere fazer homens de rapazes domados", e ainda se esclarecia, "não somos asilo, nem reformatório, nem colónia penal". Aqui deixo a minha justa homenagem.

CASA DO GAIATO

No vazio de um lar que teriam por direito,
Na exploração dos corpos, das almas e dos seres,
Que nunca autorizaram,
Na carência de amor, de roupa, pão ou de sorrisos,
Nos rostos imundos de uma miséria para a qual nunca tiveram explicação,
Eles nasceram…

Frutos menores da sarjeta desumanizada.
Abandonados por vergonha, medo, fome ou por defeitos
Para os quais nunca, por eles mesmos, contribuíram.
Trocados por vinténs, nos becos da miséria humana,
Postos a trabalhar, pedir, render, sem terem brincado
Um só minuto.

Eles, que não conhecem o significado de ambiente familiar,
De pai que é pai ou de mãe que o deveria ser,
Perdidos nas trevas de uma vida sem calor,
São o produto marginal da injustiça quotidiana,
Tratados como lixo sem voto na matéria
Ou voz que ouvida possa ser.

Também os há aqui, em Portugal, no país de abril e liberdade,
Porque a imundice dos povos e dos estados
Não tem pátria, nem bandeira, não tem hino.
Filhos sem Deus, de gente sem alma ou condições,
Abandonados por um Estado que diz ter falta de crianças
E se orgulha da sua segurança social.
Foi no último século, do passado milénio, que nasceu,
Nos anos quarenta, em plena ditadura,
A Casa do Gaiato, qual refúgio, fruto de uma alma boa,
A Obra do Padre Américo, Obra de Rua, recolhendo putos
De olhos negros de existir
Em vida escura.

Fonte de luz
Na neblina de ébano caiada nos egos de crianças perdidas,
Cariadas de dignidade, de valores, de existência.
Filhos de uma valeta marginal que ninguém vê.
Tetranetos de um mundo de injustiça.
Finalmente uma esperança, uma réstia, uma saída,
Uma fé, uma Casa do Gaiato.

Não foi perfeita a sua existência, mas fez diferença, 
Foram milhares de almas que viraram gente,
Foram milhares de seres que se fizeram homens.
Teve problemas, más lideranças por vezes, vigaristas,
Oportunistas da fraqueza dos fracos, certamente,
Mas vingou, cresceu, se multiplicou
Em Portugal, Angola e Moçambique.

Faltam casas de gaiatos e gaiatas pelo mundo,
Falta solidariedade nas vidas de muitos poderosos,
Mas sempre faltará. É natural.
Não é preciso chorar o leite derramado,
O importante… é evitar, a tempo,
Uma nova derrama.

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