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Desabafos de um Vagabundo

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

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Registos da Memória VI - Cabo Verde, Ilha do Sal - O Velho Calçadão de Santa Maria

Ilha do Sal Calçadão de  Santa Maria.JPG

Registros da Memória

VI

O Velho Calçadão de Santa Maria

 

Acompanhando os seus primeiros resorts turísticos, junto à cidade de Santa Maria, na Ilha do Sal, em Cabo Verde, o velho calçadão é local de passeio, de luz, de Sol, de praia, de oceano que se estende até ao infinito, de palmeiras que resistem ao tempo em que a água potável se torna recurso escasso e valioso. Aqui e ali, artistas locais vendem óleos deste céu e deste mar, por entre as vestes garridas das gentes e do casario baixo, também ele pintado de cores vivas como a gente que as habita.

O velho calçadão pode não ter a imponência moderna do novo, mas não lhe fica atrás na beleza do circuito. Inspira facilmente poetas e escritores, no seu desenrolar calmo até à urbe, indicando aos turistas onde passear, comer, beber ou escutar a morna que sempre toca em algum lugar. De um dos lados os candeeiros de rua fazem fila, prontos a iluminar nas noites os veraneantes que desejem sentir a brisa tépida da beira-mar. São como que os guardiões do velho caminho gasto pelos passos de quem por ali se cruza apressado, meditativo ou em passeio. Há locais assim, no mundo inteiro, locais onde de dia e noite passeia a paz.

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória IV - Cabo Verde, Ilha do Sal, Santa Maria - Noite de Lua Nova em Odjo d'Água

Lua Nova Cabo Verde.JPG

(Cabo Verde, Ilha do Sal, Santa Maria, Noite de Lua Nova em Odjo d'Água - IV - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

IV

Noite de Lua Nova em Odjo d'Água

 

Por entre a escuridão serrada, de uma noite de Lua Nova, apenas a ação do ser humano se destaca na paisagem. O breu preenche a noite nas sombras da sua escuridão. A prata da areia ganha os tons da antracite, a vegetação do pequeno promontório toma forma de seres, que parecem chegados de um além à unidade hoteleira, à beira mar, em Odjo d’Água, para pernoitar. Sem a luz da Lua, no espaço celeste, as estrelas escondem-se, timidamente, quiçá a recear a chegada de espíritos ancestrais vindos das trevas, cujas intenções todos ignoram.

Ali, somente o pequeno espaço hoteleiro se faz notar, desafiando o breu do curto cabo, por luzes que custam a rasgar a noite em Santa Maria, na Ilha do Sal, ali, juntinho à Praia de Odjo d’Água. No ar escutam-se os sons de uma morna original, vinda do hotel. Os batuques ritmados parecem convocar os seres da noite, naquela quase perfeita tela, pintada a óleo de um negro soprado pelos ventos quentes do Sahara de África, para lá do oceano. Está calor e a brisa cola-se aos corpos, de quem passa sem ser visto, deixando rastos de fragrâncias de um suor salgado de travo adocicado. Contudo, sem qualquer explicação aparente, não é o terror que se instala nas almas dos oclusivos seres ali presentes, mas uma paz insular de uma África milenar que, sem razão alguma, nos relaxa o cérebro e nos liberta os chacras do âmago de nós mesmos, por alguns momentos que sabem a eternidade, quase mágicos, impossíveis e tão transcendentais.

Gil Saraiva

 

 

 

Beijo de Praia

302 - praia.jpg302. Beijo de Praia, forrado de emoções e recheado de suspense. Este é um beijo que se inicia a meio das costas desnudas da dama que, desprevenida, o recebe com um arrepio de surpresa e de sensualidade genuína porque o beijo ocorre, com frequência. Beijo após uma saída da água, quando o homem chega molhado a mar, cheirando a sal, suor e maresia, junto da toalha onde, num plano quase horizontal, de costas, a fêmea vai deixando o Sol acariciar-lhe o dorso, a nuca, as pernas e as coxas. Beijo, numa pose que transpira sensualidade e desejo mesmo já antes de sentir o encostar dos lábios frescos e húmidos contra o eixo relaxado do seu torso, obrigando-a à contração dos músculos a cada pinga de mar que foge do cabelo do banhista enamorado para desaguar, deslizante, para lá do fundo das suas costas. Beijo que deixa que sinta a língua, o toque envolvente de dedos e mãos e onde, partir daí, dominam os sentidos, os movimentos ondulantes por entre a brisa felina da praia deserta. Beijo de praia, dado com a maré, recebido como uma onda.

 

 

 

 

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