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Desabafos de um Vagabundo

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

Serve este local para tornar visível o pensamento do último dos vagabundos que conheço: EU! Aqui ficarão registados pensamentos, crónicas, poemas, piadas, quadros, enfim, tudo o que a imaginação me permite

Registos da Memória - V - Braga Branca - Pinheiros de Natal

Braga Branca 05.JPG

(Braga Branca – Pinheiros de Natal - V - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

V

Braga Branca – Pinheiros de Natal

 

A neve caía, naquele dia 9 de janeiro de 2012, branca, pura, cristalina, mas o dia continuava teimosamente nublado escuro, taciturno e enervante. Ali, perto de casa, eu ia registando o fenómeno, raro, ocasional, de o frio conseguir fazer-se acompanhar pela neve naquela cidade que raramente a vê. Chegam a passar décadas entre visitas dessa dama branca e fria. De máquina fotográfica em punho fui procurando na paisagem que me era nova e surreal captar cada detalhe, sem um porquê, apenas por o dia era diferente de outros dias.

A dada altura, no meio do pequeno jardim do bairro, deparei-me com três árvores, decoradas de branco, no meio da névoa ensombrada pela neblina densa. Aparentavam ser Árvores de Natal. Três Pinheiros de Natal altivos, majestosos, difíceis de enquadrar numa só fotografia, com a máquina rudimentar que me acompanhava. Num segundo olhar apenas o maior me pareceu, afinal, ser um pinheiro, mas o trio realmente lembrava Árvores de Natal, quais Reis Magos, chegando atrasados ao evento, 19 dias depois da sua celebração.

Pena era que o dia estivesse tão nublado, escuro e sombrio, encoberto por aquela névoa feita neblina, que parecia desfocar a paisagem, sujando de sombras o branco que caía em flocos. Tentei por diversas vezes registar o momento. As fotografias saíam invariavelmente como que desfocadas e manchadas de penumbras irritantes. Ia para virar costas quando um raio de Sol caiu, como que por milagre, sobre aquela parcela de natureza altiva. A árvore central brilhou ainda mais do que as outras e eu entendi porque é que Natal é quando um homem quiser. Tirei a foto e sorri com a mesma alegria de alguém que, no aconchego do lar, acaba de enfeitar a sua Árvore de Natal e contempla. Que sorte…

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória - IV - Braga Branca - Pegadas

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(Braga Branca – Pegadas - IV - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

IV

Braga Branca – Pegadas

 

Olhei para trás, a meio do meu passeio pela alva neve, e dei-me conta das pegadas nítidas, vivas, bem marcadas no solo. Parecia que uma entidade invisível me seguia os passos com uma precisão de relojoeiro de uma marca dispendiosa de contadores do tempo. Voltei a olhar para as marcas no chão, decorei bem os detalhes do desenho e finalmente, respirando fundo, levantei um pé dobrado para trás e confrontei as marcas com o designe da minha sola…

As marcas no caminho e o formato da sola eram efetivamente coincidentes. Não havia, portanto, nenhum ser estranho a seguir-me e aquelas eram as minhas próprias pegadas e nada mais do que isso. Ri-me, fiquei com a certeza de que andava a ler demasiados mistérios do oculto. Olhei a paisagem tentando seguir meus passos, a uns metros, na última curva que fizera, um rasto de pegadas secundava as minhas, pior, até onde a vista alcançava o segundo trilho de marcas no chão seguindo paralelo ao meu. Parava apenas na última reta e não seguia para lado algum.

Avancei uma vez mais seguindo o meu trajeto. A minha mente desviou-se para o objetivo da minha próxima foto e continuei o meu trabalho. Meia hora depois, já de chave na mão à porta de casa lembrei-me das pegadas e olhei para trás. O segundo rasto seguira-me até ali. Desta vez não se ficara a uns metros de distância. Senti um arrepio subir-me pela espinha, atabalhoadamente abri a porta do prédio, entrei e fechei rapidamente a mesma atrás de mim. Solitariamente umas marcas de pegadas afastavam-se do meu ponto de visão. Não havia mais ninguém nas redondezas…

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória - III - Braga Branca - Verde e Branco

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(Braga Branca – Verde e Branco - III - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

III

Braga Branca – Verde e Branco

 

A sequência de catos, naquele canteiro de jardim urbano, cobertos de neve traz à memória a inevitabilidade gélida da instalação da neve em locais onde ela normalmente quase nunca se faz notar. Foi assim com Braga, nesse tempo remoto do final da primeira década deste novo século e milénio, corria o dia 9 de janeiro de 2009. O nevão anterior ocorrera 20 anos antes, ainda na década de 90 do século passado.

A imagem do verde dos catos carregados de branco, parece paralisar a vida de surpresa. O canteiro urbano, encostado à parede branca de um edifício, aparenta querer camuflar-se na paisagem, quiçá na tentativa de passar despercebido. Uma pegada, impressa na neve, no canto inferior direito da fotografia, confirma que foi em vão esse esforço de encobrimento daquela sequência de flora adormecida.

 

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória - II - Braga Branca - O Ténis

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(Braga Branca – O Ténis - II - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

II

Braga Branca – O Ténis

 

Neste registo invulgar de uma cidade de Braga coberta de neve, mesmo no pico do inverno, há sempre algo que ainda se torna mais surpreendente do que o próprio fenómeno climático em si. Neste caso, a descoberta de um ténis invertido na relva, coberto da camada branca do último nevão na cidade foi algo de surpreendente.

O que faria aquele ténis ali? Não se vislumbrava por perto aquele que deveria ser o seu inseparável par, e o ar de abandono no gelo parecia querer gritar tragédia nos confins da minha imaginação. Teria sido abandonado ou perdido? Se fosse abandonado, no meio daquele terreno não parecia fazer sentido. Quem é que se desfaz de uma única unidade do seu calçado a meio de um qualquer percurso? Se fosse perdido cheira a crime, a mistério, a alguém em fuga a quem o ténis saltou fruto do acaso durante a possível debandada por motivos sinistros e pouco legais.

Fiquei, parado no tempo e no espaço, a pensar naquilo…

 

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória - I - Braga Branca - Folhas

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(Braga Branca – Folhas - I - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

I

Braga Branca - Folhas

 

A imagem podia ser de um qualquer ponto mais elevado ou frio do país este inverno. Contudo, foi tirada há mais de 12 anos, também na estação fria, na cidade minhota de Braga. Uma terra onde vivi por algum tempo, perdido nos desabafos de um vagabundo, ao abrigo de uma relação quente, forte e sincera que deixou laços para uma vida.

Haveria, nesse ano de rumar ao Sul, em busca do ameno brilhar do Sol, que jamais cobrirá de gelo as folhas do arvoredo, telheiros, ruas e caminhos. Mas a saudade branca ficou presa nos registos da memória que guardamos no âmago do ser, do ter e do existir. Saudades de Braga Branca…

 

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória - X - Cabo Verde, Ilha do Sal, Cidade de Santa Maria - Mulheres

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(Cabo Verde, Ilha do Sal, Cidade de Santa Maria – Mulheres - X - Foto de autor, direitos reservados)

Registos da Memória

X

Mulheres de Santa Maria

 

Na azafama de mais um dia em Cabo Verde, a ida ao mercado de ar livre na cidade de Santa Maria, ali, na Ilha do Sal, faz parte dos hábitos de todos os dias. Depois é preciso levar as compras para casa antes de tratar do almoço. Hospitaleiros, afáveis e de uma simpatia contagiosa, os habitantes, homens e mulheres, gostam da interação com quem os visita.

Uns 15 minutos depois desta fotografia estive à conversa com estas cinco ilustres representantes do sexo feminino. Foi uma conversa de quase um quarto de hora e não mais porque as damas estavam com alguma urgência em regressar a casa. Da esquerda para a direita conversei com Melissa e Kiara (presa pelo pano vivo de azul às costas da mãe), e também com Eliane, Luana (ainda na barriga da mãe e a quem desejei um feliz nascimento) e Mayara, a pequenina que completava o grupo.

Fui inclusivamente convidado para o almoço, que declinei, por já ter marcado refeição num dos restaurantes da artéria principal da cidade. A simpatia chegou ao ponto de me informarem que o local que eu havia escolhido não era grande coisa e era caro, sendo mais um sítio para explorar turistas burros. Agradeci os elogios e elas riram todas com gosto. Depois deram-me os nomes das casas onde poderia comer bem, por menos de metade do preço, e seguiram na sua rotina habitual.

Como diria Cesária Évora: Saudades…

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória IX - Cabo Verde, Ilha do Sal, Cidade de Santa Maria - O "PIRATA"

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(Cabo Verde, Ilha do Sal, Cidade de Santa Maria, O "PIRATA" - IX - Foto de autor, direitos reservados)

Registros da Memória

IX

O “PIRATA”

 

A casa relembra tempos idos de aventura, viagens e ilustres malfeitores, romanceados na literatura em textos de empenho, valor, coragem e glória. Posso dizer que se trata de uma danceteria, uma discoteca, um poiso para se beber uns copos e abanar o capacete depois do cair da noite que tudo isso é verdade. A decoração deste espaço em Cabo Verde, Ilha do Sal, cidade de Santa Maria, denominada “PIRATA” não se fica apenas pela fachada do edifício.

Com efeito a decoração do interior e as vestes dos anfitriões, bem como de todo o “staff”, tenta, ao pormenor, recriar um passado romântico e aventureiro, de época, ao turista acidental que ali chegue na procura de diversão, dança, música, uns copos, enfim, de uma noite bem passada. As moças bonitas e tisnadas naturalmente pela sua origem crioula, tentam, com   um sorriso cristalino, do tamanho do mundo, trajadas a rigor, levar os visitantes ao consumo, enquanto uns jovens piratas de porte atlético, bronzeado e cativante, fazem o mesmo papel com as damas que ingressam no espaço em busca de dança e alegria.

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória VIII - Cabo Verde, Ilha do Sal, Praia de Santa Maria - Num Bar da Praia

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(Cabo Verde, Ilha do Sal, Gil num Bar na praia de Santa Maria - VIII - Foto de autor, direitos reservados)

Registros da Memória

VIII

Num Bar de Praia em Santa Maria

 

A testa a querer franzir denota a ligeira preocupação de que a fotografia me roube, por pouco que seja, a maravilhosa sensação de estar acompanhado pela felicidade. Um trago de cerveja, o corpo quente, a mente entregue à paisagem, sem outras preocupações que não a do receio daquela máquina fotográfica, num tripé sem sentimentos ou emoções dignas de registo. Não me parece aceitável que ela queira partilhar comigo aquela liberdade simples de me sentir feliz e sem problemas. Paranoia, acabo por pensar, num clique, ela deixa de estar ali, assim presente. Apesar de tudo, quem tem a cerveja sou eu.

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória VII - Cabo Verde, Ilha do Sal - O Areal de Santa Maria

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(Cabo Verde, Ilha do Sal, O Areal de Santa Maria - VII - Foto de autor, direitos reservados)

Registros da Memória

VII

O Areal de Santa Maria

 

Mais do que a memória que fica de uns dias passados num qualquer paraíso, a areia clara e quente da Praia de Santa Maria, na Ilha do Sal, em Cabo Verde, com a linha de palmeiras e casario baixo a delimitar o acesso ao interior, transmite paz, plenitude, harmonia e beleza. Na serenidade dos colmos que nos oferecem uma parca sombra, tudo parece disposto na perfeição. As marcas na areia registam pegadas de passeios serenos, multiplos, infindos.

As cadeiras prontas para receber os corpos ávidos de Sol parecem gotas de água a lembrar-nos que, nas nossas costas, se encontra um Atlântico de um azul sem fim, com recortes de anil até tonalidades de cristal ou mar profundo. Tudo aqui se conjuga na procura singular de nos relaxar o corpo e afagar a mente.

Gil Saraiva

 

 

 

Registos da Memória VI - Cabo Verde, Ilha do Sal - O Velho Calçadão de Santa Maria

Ilha do Sal Calçadão de  Santa Maria.JPG

Registros da Memória

VI

O Velho Calçadão de Santa Maria

 

Acompanhando os seus primeiros resorts turísticos, junto à cidade de Santa Maria, na Ilha do Sal, em Cabo Verde, o velho calçadão é local de passeio, de luz, de Sol, de praia, de oceano que se estende até ao infinito, de palmeiras que resistem ao tempo em que a água potável se torna recurso escasso e valioso. Aqui e ali, artistas locais vendem óleos deste céu e deste mar, por entre as vestes garridas das gentes e do casario baixo, também ele pintado de cores vivas como a gente que as habita.

O velho calçadão pode não ter a imponência moderna do novo, mas não lhe fica atrás na beleza do circuito. Inspira facilmente poetas e escritores, no seu desenrolar calmo até à urbe, indicando aos turistas onde passear, comer, beber ou escutar a morna que sempre toca em algum lugar. De um dos lados os candeeiros de rua fazem fila, prontos a iluminar nas noites os veraneantes que desejem sentir a brisa tépida da beira-mar. São como que os guardiões do velho caminho gasto pelos passos de quem por ali se cruza apressado, meditativo ou em passeio. Há locais assim, no mundo inteiro, locais onde de dia e noite passeia a paz.

Gil Saraiva

 

 

 

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